
O sol brilhava e seu corpo pedia um banho.
Abriu a porta do banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água escorrer, seus
movimentos estavam mais lentos que o de costume, sentia-se anestesiada.
Aos poucos despia-se, peça por peça.
Sentiu a temperatura da água e entrou, a água estava morna, mas sua pele morena
teve a impressão de estar gelada, trimilicou e não ligou, sua cabeça latejava de
idéias.
Deixou a água escorrer pelo corpo, se inclinou contra a parede e chorou em silêncio
no pequeno mundo que havia construído naquele banheiro.
Chorou como há tempos não fazia, aproveitou e tirou o peso que carregava nas
nas costas.. Chorou como quem implora uma salvação.
Salvação para tanto sentimento que insistia em lhe dominar. Sentia necessidade de
chama-lo, abrir o peito com as mãos e mostrar os sentimentos que se entranhavam
entre seus tecidos e vísceras. Precisa encontra-lo e lhe mostrar que ele se fazia
presente além de pensamentos e vastos desejos, ele pulsava forte por cada
milimetro cúbico de sangue, em cada célula de oxigênio que alimentava seu corpo.
A água escorria juntamente com as lágrimas, era o momento que podia chorar sem
que o mundo a julgasse. Ela se refaz, toma seu banho rotineiro.
Desliga o chuveiro, se veste como sempre, maquia-se como sempre e ninguém
desconfia que atrás dos lábios carnudos bem pintados de vermelho e sorrisos largos
há uma menina que espera a volta dele. E que a reza da noite funcione e traga-o
para o apartamento da sua menina.








